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Empresas nas marchas LGBTI e dezanove: desinformar não é um orgulho

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Empresas nas marchas LGBTI e dezanove: desinformar não é um orgulho

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A importância de existirem órgãos de informação sobre questões LGBTI é inegável. Informação é poder. E todxs desejamos uma comunidade empoderada. A título individual, sou o exemplo de como um site informativo, no caso, o PortugalGay, foi tão importante para a minha formação enquanto cidadão informado, politizado e ativista.

No entanto, tudo isto é posto em causa quando algum destes órgãos usa a sua projeção para, com mentiras, denegrir estruturas da comunidade LGBTI, como são o seu mais importante exemplo as comissões que organizam anualmente as Marchas do Orgulho.

Se, em 2017, o alvo da dezanove foi a Comissão Organizadora (CO) da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa (MOL), este ano, parece-me, escolheu desinformar sobre a Marcha do Orgulho LGBT do Porto (MOP).

Sobre o que aconteceu no norte – acerca do impedimento à participação da associação de comércio e turismo “Variações” – pouco sei, porque não me encontrava lá. Mas deixo algumas questões: falaram com a comissão organizadora para que a sua versão pudesse constar da notícia? Tentaram averiguar se havia antecedentes que pudessem ter causado o problema? Não me parece. Limitaram-se a escrever, de forma preconceituosa e estereotipante sobre “anarquistas e anti-capitalistas”.

Por exemplo, eu ouvi dizer que a Variações se fez passar pela organização da MOP junto das autoridades e tentou até desviar o percurso normal da marcha. Mas não me compete averiguar se isto é ou não verdade. À dezanove, sim.

 

 

Campanhas negras

Do que melhor vos posso falar é da campanha negra feita à CO da MOL, em 2017.

A propósito da participação de um grupo de trabalhadores do BNP Paribas, a dezanove decidiu lançar a confusão, publicando mentiras sobre uma suposta decisão da CO da MOL em não autorizar empresas no desfile.

Ouviu a versão dos trabalhadores “BNP Paribas Pride”, ouviu a versão da ILGA e citou uma publicação no Facebook de um ativista das Panteras Rosa, mas nada perguntou à CO.

Nos dias que se seguiram, a campanha continuou, tendo até criado uma sondagem sobre se as empresas deveriam ou não ser autorizadas na marcha. Quando isso nunca foi uma questão.

Na verdade, em vários anos, já se deu a presença de marcas comerciais na MOL. Aquilo que está consensualizado é que estas têm de informar previamente a CO, que decide em cada caso se faz ou não sentido aceitar. Normalmente aceita-se.

Para evitar discricionariedade, neste momento, está a ser criado o regulamento da MOL, onde ficarão definidos os moldes da participação de coletivos, formais ou informais, com ou sem fins-lucrativos.

À CO compete também indicar o lugar em que cada bloco segue no desfile. O critério principal é que os coletivos que compõem a CO vão à frente – por motivos óbvios, como o trabalho, tempo e recursos que usam ao longo do ano para pôr em marcha um evento que junta uma dezena de milhar de pessoas. Depois, a necessidade de dar visibilidade a determinados grupos que são invisibilizados pela sociedade e dentro da própria comunidade – pelo terceiro ano consecutivo, o bloco trans seguiu à frente de todos e, este ano, seguiu-se-lhe o bloco bi. Depois, critérios logísticos como garantir que as carrinhas de som não abafam megafones ou que o som de cada uma delas não se mistura. Depois dos coletivos da CO, seguem os convidados não integrantes da CO, os partidos políticos, e, no fim de tudo, as entidades com fins lucrativos.

O que aconteceu na MOL 2017 foi que algumas marcas não quiseram acatar a decisão de ir no final. Nunca, como a dezanove noticiou, foram impedidas de participar.

 

 

BNP Paribas Pride – orgulho ou preconceito?

O caso da comissão de trabalhadorxs LGBTI do banco BNP Paribas foi um pouco mais complexo. Ao contrário do que a dezanove noticiou, a CO nunca proibiu a sua participação em 2017. O que ficou decidido foi que esta deveria seguir no final e não dentro dos blocos de coletivos integrantes da CO. A ILGA ficou responsável por informar o BNP Paribas Pride dessa decisão, mas não o fez. Assim, este grupo apareceu identificado com o seu logo, dentro do bloco da ILGA, e foi informado que não o poderia fazer – em vez disso, deveriam dirigir-se para o final do desfile. Tudo isto aconteceu num ambiente muito exaltado, nada propício a entendimentos. A CO ficou a pensar que o BNP Paribas Pride tinha sido informado mas não tinha acatado a decisão. As pessoas trabalhadoras deste banco ficaram a pensar que não eram bem-vindas na MOL.

Independentemente do que possamos pensar sobre o envolvimento deste banco no genocídio do Ruanda ou do seu apoio à ditadura do Mianmar, do que aqui se trata é de um grupo de trabalhadorxs que corajosamente decidiram juntar-se e formar um coletivo que luta pela sua visibilidade e direitos dentro da empresa. Por esse motivo, eu fui umas das pessoas que, em representação da CO da MOL, este ano, reuni previamente com as pessoas do BNP Paribas Pride, onde foram esclarecidos os mal-entendidos e (re)afirmado que são muito bem-vindxs a uma marcha que também é delxs. O seu lugar no desfile – depois dos coletivos da CO – foi-lhes informado e, sem qualquer problema, integraram a MOL 2018 orgulhosamente envergando as suas t-shirts identificativas.

 

 

Nós merecemos o melhor jornalismo

A dezanove está registada na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Como tal, tem obrigações legais – como cumprir a Lei da Imprensa – e éticas – como seguir o Código Deontológico dos Jornalistas. Entre outras acusações levianamente publicadas neste artigo, são falsas as afirmações: “A presença do grupo de trabalhadores do banco francês tinha já levantado mal-estar durante a organização da fase de preparação da marcha, já que terá sido votado que não seria permitida a presença de marcas ou empresas no desfile. Apenas a ILGA estaria a favor da presença do BNP Paribas.”

É particularmente grave a publicação de supostas posições oficiais sem a sua confirmação. E eu sei que a CO nunca recebeu qualquer pedido de esclarecimento por parte da dezanove.

Noticiar sem falar com as fontes visadas não é só um mau trabalho jornalístico. Tem consequências graves na coesão de um movimento diverso, que já de si tem discrepâncias ideológicas e na forma de atuar. Se a ideia é informar o público e contribuir para uma comunidade mais atuante, militante e unida, não se pode escrever e publicar de ânimo leve.

Nós merecemos informação de qualidade!

NOTA: Escrevo este artigo a título pessoal. Não fui mandatado a fazê-lo pela Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa, nem escrevo em seu nome. Integro, desde 2016, a CO da MOL como membro da Academia Cidadã, um dos coletivos que a compõe.


Este artigo foi escrito utilizando o Acordo Queerográfico.

 

One comment

  • Isidro Sousa

    10 Julho, 2018 at 16:40

    Não estive presente na Marcha do Porto mas tive o gosto de reencontrar, nos dois dias seguintes, domingo e segunda-feira, um amigo de longa data que faz parte da Comissão Organizadora das duas marchas referidas neste texto. Ele relatou-me pormenorizadamente o que sucedeu no último sábado. Não tenho a menor razão para duvidar de uma só palavra que ouvi. Logo após – ontem – li a notícia (!!!) que envolve «anarquistas» no referido site. O que li nesse artigo foi uma flagrante e total desinformação… puro sensacionalismo. Com a verdade dos factos totalmente deturpada. Que tremenda falta de ética! Mas não compete a mim repor a verdade. Quem de direito irá fazê-lo, a qualquer momento… e é bom que o façam.

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