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Porque deixarei de ir à Padaria (da Escravatura) Portuguesa

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Com um título destes podem pensar que me vou queixar de algum problema que tivesse ocorrido no atendimento numa das dezenas de padarias desta marca. Descansem os destiladores de ódio ocasionais. Sempre fui servido com o maior dos profissionalismos.

Do que venho falar é de escravatura.

Nuno Carvalho, gerente desta cadeia, falou hoje em direto para a SIC NOTÍCIAS e, com a maior das naturalidades, explicou a sua teoria de como isto só vai lá com escravatura.

Senão, vejamos: o escravo nada recebia pelo seu trabalho, para além de alojamento e comida que o mantivesse vivo. Hoje em dia, o ordenado mínimo, que a maioria dos trabalhadores (sim, trabalhadores e não colaboradores) da Padaria Portuguesa aufere, no centro de Lisboa mal dá para pagar um quarto (a menos que tenha as condições de uma cubata), alimentação e transporte. Difere, comparando a clássica escravatura com a proto-escravatura dos tempos de hoje, a existência de um horário máximo de trabalho. Ora, o gerente/capataz não gosta nada disto. Acha uma chatice que as pessoas só possam trabalhar 40h semanais e ter que pagar compensações por horas extraordinárias.

A mesma cadeia que parece ter capacidade para abrir uma nova loja a cada mês também acha um aborrecimento existir um salário mínimo e, em geral, regras salariais, porque, segundo ele, o que se devia pagar era consoante a evolução dos lucros da empresa. Ora, se isto fosse aplicado no longo prazo, quando a empresa estivesse a fazer milhões em lucro, seria excelente para o trabalhador. Mas sei que não é a isto que ele se refere. Sei que fala dos primeiros 2 anos, ou 3 ou 4, em que a maioria das empresas não consegue tirar dividendos. Suponho portanto que, no seu entender, os trabalhadores deveriam trabalhar de graça. Quem sabe até pagar para trabalhar.

Acresce que acha uma tontice que não se possa despedir alguém porque lhe deu na veneta. Chama-lhe falta de flexibilidade laboral. Mas essa conversa já a ouvimos desde que existe exploração do ser humano pelo ser humano, por isso não me espanta.

O que me espanta é o gerente não aproveitar e fazer um rebranding para “Padaria da Escravatura Portuguesa” e, já agora, alterar a decoração para um estilo retro-fancy a lembrar uma senzala colonial, acrescentando grilhões à farda dos trabalhadores. Faria muito mais sentido.